Copa do Mundo 1950: Seleção brasileira fracassa em casa

O Torneio  de 50 foi a primeira Copa do Mundo depois da interrupção de 12 anos causada pela Segunda Guerra. No Brasil, era grande a expectativa pelo primeiro título mundial.
Chance igual não houvera. Afinal, a seleção brasileira estaria jogando em casa, diante de sua apaixonada torcida.
Para fugir ao domínio alemão, o presidente da Fifa, Jules Rimet, tinha transferido a sede da entidade da ocupada França para a neutra Suíça, onde se encontra até hoje.
Destruídos e abalados pela longa guerra, nenhum dos países europeus tinha condição de sediar a quarta Copa do Mundo. O Brasil foi o único candidato.

Maracanã
As autoridades brasileiras resolveram construir, no Rio de Janeiro, o maior estádio do mundo: o Maracanã, com capacidade para cerca de 200 mil torcedores.
Pela primeira vez, o troféu da competição passaria a ter o nome do presidente da Fifa, Jules Rimet, um dos principais responsáveis pela existência dos Mundiais.

Também pela primeira vez, as seleções usariam números nas camisas dos jogadores.
Trinta e três países se inscreveram para as eliminatórias. A Argentina, alegando divergências com a direção do futebol brasileiro, resolveu ficar de fora.
A Fifa decidiu que as 13 seleções classificadas para a fase final seriam divididas em quatro grupos. Com a desistência da Escócia, o grupo finalista ficou reduzido a 12 equipes.
A poderosa seleção da Inglaterra fazia sua estréia no torneio. E o Uruguai, campeão de 1930, voltava a participar.

Campanha brasileira
Do grupo do Brasil faziam parte a Iugoslávia, a Suíça e o México. A seleção brasileira estreou no dia 24 de junho, contra os mexicanos, no Maracanã. O Brasil venceu sem dificuldade por 4 a 0, dois gols de Ademir, um de Jair e o outro de Baltasar.
O time do Brasil já não contava mais com Leônidas da Silva, mas a seleção tinha um plantel excelente. A base era o time do Vasco da Gama, apelidado de “Expresso da Vitória.”
No gol, estava o confiante Barbosa, considerado um dos maiores goleiros que o Brasil já teve. Na defesa, os destaques eram Augusto e Juvenal. No meio-de-campo, brilhava o futebol refinado de Danilo, Jair da Rosa Pinto e Zizinho, o “Mestre Ziza”, que, para muitos, foi igual ou melhor do que Pelé. No ataque, jogavam Ademir Menezes e o centroavante do Corinthians, Baltasar, o “Cabecinha de Ouro.”
No segundo jogo, disputado no estádio do Pacaembu, em São Paulo, a seleção brasileira não repetiu a atuação da estréia e ficou no empate de 2 a 2 contra a fraca equipe da Suíça.
O Brasil só iria se classificar no último jogo das oitavas-de-final, com uma vitória de 2 a 0 sobre a Iugoslávia, no Maracanã, com gols de Ademir e Zizinho, este úiltimo finalmente levado ao time titular pelo técnico Flávio Costa, atendendo aos apelos nacionais.

Fracasso inglês
No grupo 2, a Inglaterra deu vexame. Depois de vencer o Chile por 2 a 0 no Maracanã, os ingleses foram derrotados em Belo Horizonte por 1 a 0 pelo time dos Estados Unidos, considerado bastante fraco.
Os ingleses não conseguiram se recuperar da vergonhosa derrota para os americanos e acabaram perdendo também o último jogo para a Espanha, por 1 a 0. Com três vitórias, a Espanha se classificou para o quadrangular final.
No grupo 3, a Suécia se classificou com uma vitória de 3 a 2 sobre a Itália, e um empate de 2 a 2 contra o Paraguai.
No grupo 4, formado apenas por 2 seleções, a poderosa equipe uruguaia, apelidada de “Celeste Olímpica”, não teve dificuldade para despachar a fraca Bolívia com uma goleada de 8 a 0.
No começo do quadrangular decisivo, o Brasil pôde então mostrar seu poderio. Em 9 de julho, o Brasil passeava no Maracanã, aplicando uma impiedosa goleada de 7 a 1 sobre a Suécia.
Zizinho e Ademir Menezes, que marcou 4 gols, comandaram a goleada para delírio dos brasileiros, que viam o sonho do campeonato mundial cada vez mais perto de ser realizado.
No outro jogo, disputado em São Paulo, Uruguai e Espanha não passaram de um empate em 2 a 2.

Touradas em Madri
Em 13 de julho, a torcida brasileira voltou a lotar o Maracanã para a partida da seleção contra a Espanha.
Com um coro de mais de 150 mil pessoas, a torcida embalou a seleção brasileira cantando Touradas em Madri, a composição de Braguinha popularizada por Carmem Miranda.
Os espanhóis, atordoados pela música e pela gozação, não resistiram. O Brasil venceu por 6 a 1, com 2 gols de Ademir, dois de Chico, um de Jair e um de Zizinho.
O Brasil, com duas vitórias, ambas por goleada, em dois jogos, iria enfrentar na final a poderosa equipe do Uruguai, que, com dificuldade, tinha vencido a Suécia por 3 a 2 no Pacaembu. O Brasil precisava apenas de um empate para se sagrar campeão.

Uruguai cala Maracanã
Mas o time uruguaio era forte. No gol, o versátil Maspoli; na defesa, os valentes Tejera, Gambetta e o incansável capitão Obdulio Varela; no ataque, os habilidosos Ghiggia, Julio Perez e Schiaffino.
Em entrevista concedida à BBC, o falecido jogador Zizinho disse que os jogadores brasileiros não subestimaram a seleção uruguaia: “Nós conhecíamos eles de torneios sul-americanos e sabíamos que tinham um time fortíssimo, difícil de ser batido. Sempre endureciam contra o Brasil.”
Às vésperas do jogo, a delegação brasileira trocou a tranqüila concentração de São Conrado pela movimentada sede do Vasco da Gama.
Torcedores, dirigentes e políticos oportunistas, fizeram fila para tirar fotografias ao lado dos “campeões do mundo”.
De acordo com números oficiais, 173.850 torcedores foram ao Maracanã assistir à grande final, estabelecendo um novo recorde mundial de público. Mas há quem diga que, naquele 16 de julho, o Maracanã recebeu mais de 200 mil pessoas.
Depois de um primeiro tempo sem gols, o ponta Friaça abriu o placar dando início à festa brasileira. Afinal, restavam menos de 45 minutos, e o empate daria o título ao Brasil.
O Uruguai empatou aos 22 minutos com um gol de Schiaffino. Treze minutos depois, o ponta Ghiggia fez o gol da vitória uruguaia.
A vitória inacreditável emudeceu o Maracanã e deu o bicampeonato ao time do Uruguai.
Atordoados com a inesperada derrota, os dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) recusaram-se a entregar o troféu ao capitão uruguaio Obdulio Varela, como mandava o protocolo da Fifa.
Obdulio recebeu a Copa do Mundo das mãos do presidente da FIFA, Jules Rimet.
Nem o consolo da artilharia de Ademir Menezes, com 9 gols, amenizou o trauma da perda do título, que se abateu sobre a torcida brasileira. A derrota na final contra o Uruguai iria assombrar os brasileiros por muito tempo.
O goleiro Barbosa e o lateral Bigode foram acusados de ter falhado no segundo gol uruguaio e tiveram que conviver com esse fantasma até o fim da carreira.

Até Breve

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